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A RELIGIÃO DOS ESCRAVOS

 

 

Os escravos africanos eram proibidos de praticar suas várias religiões nativas. A igreja Católica Romana deu ordem para que os escravos fossem batizados, e eles deveriam participar da missa e dos sacramentos. Apesar das instituições escravagistas e da igreja, entretanto, foi possível aos escravos, comunicar, transmitir e desenvolver sua cultura e tradições religiosas. Houve vários fatos que nos ajudaram a manter esta continuidade: os vários grupos étnicos continuaram com sua língua materna; havia um certo número de líderes religiosos entre os escravos; e os laços com a África eram mantidos pela chegada constante de novos escravos.

Desde o começo pais e mães de santos buscavam reafricanizar a religião. Isto foi possível em parte, por que a rota dos navios entre a África e o Brasil conservou viva a conexão entre os povos. Isto continuou mesmo depois da abolição da escravatura em 1888. Escravos libertos que puderam viajar para as áreas iorubás foram iniciadas no culto dos orixás e então, ao retornar ao Brasil puderam fundar terreiros e revitalizar a prática religiosa.

A partir da segunda metade do séc. 19, surgiram grupos organizados, que recriavam no Brasil cultos religiosos que reproduziam não somente a religião africana, mas também outros aspectos da sua cultura na África. Nascia a religião afro-brasileira, primeiro na Bahia, conhecida como Candomblé, e depois pelo país afora, recebendo nomes locais como Xangô em Pernambuco, tambor-de-mina no Maranhão e batuque no Rio Grande do Sul. Os principais criadores dessas religiões foram negros de nações Yorubás ou nagôs, especialmente os provenientes de Oyó, Lagos, Queto, Ijexá, Abeocutá e Iquiti, os das nações Fons ou Jêjes, sobretudo os mahis e os daomeanos, e os Bantos de Angola e Congo. Os ritos se desenvolveram na Bahia, em Pernambuco, Alagoas, maranhão, Rio Grande do Sul e, posteriormente no Rio de Janeiro e mais tarde em São Paulo.

As religiões afro-brasileiras ainda carregam os efeitos de sua interação com outras tradições religiosas, especialmente o catolicismo. Os Orixás, Voduns e Inquices, foram justapostos com santos católicos e o interior dos terreiros possuía numerosos elementos católicos, incluindo estátuas de santos, enquanto os objetos religiosos africanos eram escondidos. As religiões afro-brasileiras eram proibidas , e os terreiros eram freqüentemente visitados pela policia. Por isso seus participantes deviam sempre buscar caminhos para fortalecer a aparência católica dos orixás e dos terreiros. O sincretismo se tornou assim estratégia de sobrevivência por um longo período.

Fonte: esta



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A ALIMENTAÇÃO DOS ESCRAVOS QUE TRABALHAVAM

NAS FAZENDAS DE MINAS GERAIS

 

EDUARDO FRIEIRO

 

 

 

Os escravos que trabalhavam nas lavouras de Minas não recebiam o tratamento humano que os ingleses da mineração de Morro Velho davam aos seus e a que nos referimos no capítulo anterior. O tratamento era pelo geral dos mais duros e até de monstruosa insensibilidade em muitos casos. A alimentação consistia no estritamente necessário para que os "fôlegos vivos" (como eram chamados) não se enfraquecessem demais ou não morressem de desnutrição, com grave prejuízo dos trabalhos que deles se exigia. Interessava ao proprietário conservá-los, como às bestas de carga, em boas condições de uso.

A alimentação, quase sempre, não passava de feijão bichado e arroz mal cozido. Em outros casos, a pobre besta escravizada tinha de se contentar com laranja, banana e farinha de mandioca. E toca a trabalhar. Assim como ficou no nosso folclore:

Comida de negro brabo

Quatro laranjas num gaio
Uma cuia de farinha
Cinco ponta de vergaio

Os porcos tinham melhor alimentação, ou quando nada mais farta, porque era preciso engordá-los para o abate. "
Comida pouca e bem salgada, pro negro beber muita água", tal era o mote de muito senhor.

Não faltava quem defendesse os fazendeiros contra as acusações gerais de maus tratos e pior passadio, a que submetiam os seus escravos. Assim, se fazia, por exemplo, num trabalho sobre a agricultura em Minas, publicado em várias edições do
Correio Oficial de Minas
, em dias de outubro de 1859, sem constar o nome do autor, mas que supomos ser do conselheiro Francisco de Paula Cândido. Dele retiramos os seguintes tópicos:

"
O escravo do fazendeiro nesta província tem uma alimentação que faria inveja às classes indigentes da Europa e a muita gente livre que vive nas nossas velhas cidades… A base da alimentação dos escravos é o feijão, e esse pão de farinha de milho (fubá) sem fermento, a que damos a denominação pouco eufônica de – angu. O angu feito em um tacho com água quente, bem como o feijão, é dado ao escravo à discrição, e há sempre tanta sobra que eles sustentam com ela seus cães. O toucinho também lhes é fornecido para adubar o feijão. O escravo tem além disso, para seu alimento as ervas, como mostarda e serralha que crescem espontaneamente em todas as roças, as frutas, especialmente a laranja, que é de tanta abundância, em muitos lugares, que apodrece desprezada debaixo dos pés. Tem muitas vezes carne, quase sempre ele mesmo aumenta a sua cozinha com a caça, palmito, mandioca, batatas, etc. Quase todo escravo tem a sua roça própria, que cultiva nos dias santos e outras vagas, da qual o mesmo senhor compra-lhe os produtos nos anos de ruim colheita. Outros plantam fumo e algodão, que vendem para a compra de roupas domingueiras e outras necessidades".- Mais: "Além desses lucros lícitos, por via de regra, todo escravo roubava de seu senhor.
"

Lembrava que era pelo geral bondoso o tratamento que os proprietários davam aos cativos, ponderando:

"
Não é exato, como se pretende, que o trabalho escravo seja excessivo, e basta comparar por esse lado a sorte dos escravos nesta província com a dos jornaleiros das fábricas da Europa, para se concluir que aqueles são mais felizes. A diferença está no nome, se uns são escravos por lei, outros o são pela fome.
"

Citava a seguir as manufaturas de algodão na Inglaterra onde meninos desde a idade de oito anos trabalhavam oito a dez horas consecutivas, tornando a trabalhar depois de duas a três horas, e assim continuavam durante semanas. Para tê-los acordados, castigavam-nos com cordas, chicotes e às vezes com pauladas nas costas e na cabeça.

Vejamos como se tratavam os cativos numa fazenda típica do centro de Minas, pelo meado do século passado. Fazenda importante, a do major Mascarenhas. Possuía mais de centena e meia de escravos de ambos os sexos. A vida a que estavam ali sujeitos, dando-se crédito ao que nos informa Paulo Tamm (A família Mascarenhas e a indústria têxtil em Minas. Belo Horizonte, 1940, p. 65 – obra reeditada com o título Uma dinastia de tecelões. Belo Horizonte, 1960), era bem melhor que na maior parte das fazendas. Um sino os despertava antes do romper do sol. Formados em fila no terreiro, eram contados pelo feitor e seus ajudantes, que logo a seguir rezavam uma oração, repetida por todos. Distribuída a cada um a alimentação da manhã, partiam para as lidas da roça e imediatamente homens e mulheres começavam o penoso labor. Às oito horas chegava o almoço, trazido por escravas, composto de feijão cozido com gordura e misturado com farinha de mandioca. Descanso de meia hora e, logo, continuação da labuta. Às duas horas vinha o jantar: feijão com angu e couve, o mesmo todos os dias. Duas vezes por semana, um pedaço de carne. Ao pôr-do-sol, regresso à fazenda. Passada a revista pelo feitor, recebia cada um a ceia, que era um prato de canjica adoçada com rapadura.

O romancista Avelino Fóscolo, realista da escola de Zola, retraçou num quadro incisivo os hábitos sociais duma fazenda da mesma região e aproximadamente da mesma época. Quem sabe não era a mesma antes mencionada, que o escritor conheceu muito bem? Eis como, no romance O mestiço, mostra os tristes escravos cevando-se como suínos na comida que lhes é servida em pesadas vasilhas:

"
Em baixo assomaram duas escravas trazendo o jantar. Os trabalhadores se encaminharam à sombra de um jacarandá onde as mulheres depuseram gamelas contendo a comida: angu em bolas endurecidas, quase petrificadas, e feijão intragável. Com avidez de famintos, procurando cada qual maior quinhão, lançaram-se sobre os mal preparados alimentos, comendo todos em promiscuidade, com as mãos imundas e numa voracidade de animal selvagem.
"

Servia-se o jantar às duas horas. O almoço às oito, constara de feijão com farinha de mandioca. Finda a refeição, o feitor acendia o cachimbo e os homens livres chupavam compridos cigarros de palha, enquanto os cativos se privavam dessa distração, por temerem o senhor.

 



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A ALIMENTAÇÃO DOS ESCRAVOS QUE TRABALHAVAM

NAS FAZENDAS DE MINAS GERAIS

 

 

 

 

 

 Linguagem minudente, exata, é a que usa outro romancista mineiro, Gilberto de Alencar, em Memórias sem malícia de Gudesteu Rodovalho, ao fazer-nos a descrição da comida dos servos da gleba, numa fazenda para os lados de Capela Nova das Dores, perto de Carandaí. Muito cedo, ainda no escuro, após ingerirem o gole de cachaça e a xícara de café, eram os homens encaminhados para a roça pelo feitor. O almoço e o jantar eram trazidos do sítio por um dos camaradas. Vinham num grande balaio contendo a panela de feijão, o angu esparramado em largas folhas de bananeira, a abóbora moganga, a couve rasgada, raramente um pedaço de carne de porco fresca ou salgada. Posto no chão o balaio, todos se acocoravam em volta, enchiam as cuias, tomavam a colher de ferro estanhado e iam sentar-se por ali, nos troncos derrubados, comendo em silêncio. Repetiam uma e duas vezes. Iam depois às bananas ou ao leite com angu. Saciados, arrotavam sonoramente, puxavam da faca, cortavam na palma da mão o fumo de rolo, alisavam sem pressa a palha de milho, faziam o cigarro e batiam a binga, tirando o fogo. À noitinha, no alpendre, tomavam outro gole de cachaça e outra xícara de café.

Inicia-se Uma história de quilombolas, de Bernardo Guimarães, com um diálogo entre o chefe do quilombo e um negro que acaba de se refugiar ali:

 



"
- Então, malungo, está comendo tão caladinho!… Fala sua verdade, isto não é melhor do que comer uma cuia de feijão com angu, que o diabo temperou, lá em casa do seu senhor? …

- E às vezes nem isso, pai Simão. Laranja com farinha era almoço de nós, e enxada na unha de sol a sol.."

O romancista Godofredo Rangel (Vida ociosa) fala duma fazenda do sul de Minas, onde havia tantos escravos, que davam de comer à molecada num cocho de que ainda no eirado restam vestígios. "
Despejavam ali dentro tachadas de canjiquinha e com uma buzina convocavam a meninada esparsa. De todas as senzalas, da casa, da horta, negrinhos acudiam correndo, como uma horda de capetinhas nus. E as mãos avançavam para a comida.
"

Com o fim da escravidão, não melhoraram as condições alimentares da população negra. Em muitos casos, pioraram. Libertara-se de todo trabalho cativo e da dureza e maus tratos dos senhores; tinha porém agora de ganhar o sustento mediante a iniciativa e o esforço próprios, em condições penosas e difíceis. Muita gente de raça negra, esparsa pelos sertões de Minas, tão falha de recursos se acha em muitos casos, que se nutre mal e mal com o que a natureza avaramente lhe pode proporcionar: algum peixe, alguma caça, raízes, palmitos e frutas do mato, como pequis (com suas castanhas substanciais), araçás, goiabas, guarirobas, araticuns, cagaiteiras, pitangas.

O palhaço Benjamin de Oliveira, outrora famoso, filho de pretos, antigos escravos, conta em suas
Memórias (recolhidas por Clóvis Gusmão, em A Gazeta. São Paulo, 02/09/1941) como curtira privações durante a infância em Pará de Minas: "Todos ali sabiam – disse – que meus pais passavam dias e dias se alimentando de abóbora e mingau de fubá
".

(FRIEIRO, Eduardo. Feijão, angu e couve. Belo Horizonte / São Paulo, Editora Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo, 1982. Reconquista do Brasil (nova série), v. 72)


EDUARDO FRIEIRO nasceu em Matias Barbosa, MG, no ano de 1892, falecendo na mesma localidade em 1982. Por sua iniciativa foi fundada a Sociedade Editora Amigos do Livro, em Belo Horizonte. A partir de 1946, começou a escrever artigos literários para o Estado de Minas e para o Diário de São Paulo. Foi diretor da Biblioteca Pública de Minas Gerais. Publicou, entre outros livros, Páginas de crítica e outros ensaios (1956), O diabo na livraria do cônego e outros temas mineiros (1957), O alegre arcipreste e outras páginas da literatura espanhola (1959), O romancista Avelino Fóscolo (1960) e Torre de papel (1969).
(Grande enciclopédia Larousse cultural)

 



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